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Ad astra per Aspera – por caminhos árduos até às estrelas

By Joao Alves Ferreira

A dúvida sobre o próprio valor é talvez uma das maiores tragédias humanas, uma sombra que acompanha a humanidade desde os seus primórdios… A ciência psicológica mostra-nos que a autocrítica excessiva está fortemente associada a depressão, ansiedade e estados de desespero. Porém, o paradoxo é evidente: sem confronto com a dificuldade, sem a aspereza do real, não existe maturação da identidade. É no atrito com a resistência do mundo que o sujeito adquire a solidez necessária para se erguer. Doem os ossos com o crescimento infantil, cresce o homem com a dor da jornada. É no confronto com a adversidade que a identidade encontra terreno fértil para florescer. Filosoficamente, este dilema remete-nos à condição existencial descrita por Kierkegaard e Sartre: o indivíduo é lançado no mundo sem garantias prévias, condenado à liberdade e obrigado a criar sentido. Nesta tarefa, oscila entre a tentação de se perder na banalidade e a coragem de assumir a própria singularidade. A dúvida sobre si mesmo, quando não se transforma em reflexão construtiva advinda do aborrecimento, converte-se em algo a qual somente consigo chamar anomia subjetiva: um vazio existencial que aprisiona, que do homem faz refém. E, no entanto, não somos apenas biologia… Poderíamos dizer que o ser humano vive numa tensão entre o finito e o infinito! Habita um corpo limitado, mas pensa em termos de eternidade… Um corpo vulnerável que ousa sonhar com o não efémero… Esta distância interior gera dor, mas também potência criadora! É precisamente através da “aspera”, a rudeza das experiências, os fracassos e as quedas, que se manifesta a abertura para o transcendente. A estrela não é símbolo distante, mas metáfora daquilo que em nós insiste em brilhar apesar da escuridão, mesmo quando a noite se torna densa e nos engole. Do ponto de vista psicológico, a autoeficácia de Bandura mostra-nos que acreditar na própria capacidade de agir é determinante para o sucesso… Mas esta crença não nasce no conforto; nasce do ensaio, do erro e da superação progressiva. Não se trata de cultivar ilusões grandiosas, mas de reconhecer que cada obstáculo vencido reconfigura o cérebro, reforça circuitos de resiliência e reescreve a narrativa do eu. A existência, portanto, não deve ser entendida como ausência de dificuldade, mas como um diálogo permanente com ela. Só na travessia da dor se encontra a possibilidade de liberdade. É neste sentido que a máxima latina “Ad astra per aspera” ganha atualidade: alcançar as estrelas não é negar a dureza da vida, mas aceitá-la como condição da própria ascensão. Viver, portanto, não é evitar a aspereza e rigidez, mas aceitá-las como condição do crescimento! A dor, quando atravessada, transforma-se em sabedoria; a adversidade, quando acolhida, torna-se impulso! Como afirmava Nietzsche, “aquilo que não me destrói, torna-me mais forte”, não por glorificação do sofrimento, mas pela consciência de que é na fricção que se forja o ser, o self, o todo e o tudo. Por caminhos árduos até as estrelas! Em última análise, não somos definidos pela dúvida que nos paralisa, mas pela decisão de nos movermos apesar dela. O valor humano não pode ser aferido pelo olhar externo, mas pela coragem de sustentar a própria existência diante do abismo. Assim, a verdadeira conquista não está na ausência de dor, mas na capacidade de caminhar com ela em direção ao horizonte. É neste gesto, erguer-se apesar do peso, avançar apesar da incerteza, que se cumpre a promessa: cada dificuldade é um degrau, e cada degrau, uma aproximação à estrela que nos espera.

Ad astra per aspera – through hardships to the stars (translation by Josefa Ros Velasco)

Doubt about one’s own worth is perhaps one of the greatest human tragedies, a shadow that has accompanied humanity since its earliest beginnings. Psychological science shows us that excessive self-criticism is strongly associated with depression, anxiety, and states of despair. Yet the paradox is evident: without confrontation with difficulty, without the roughness of reality, there is no maturation of identity. It is in the friction with the world’s resistance that the individual acquires the solidity needed to rise. Bones ache with childhood growth; the man grows through the pain of the journey. It is in the encounter with adversity that identity finds fertile ground to flourish.

Philosophically, this dilemma leads us to the existential condition described by Kierkegaard and Sartre: the individual is thrown into the world without prior guarantees, condemned to freedom and compelled to create meaning. In this task, one oscillates between the temptation to dissolve into banality and the courage to embrace one’s own singularity. Self-doubt, when it does not transform into constructive reflection arising from boredom, becomes something I can only call subjective anomie: an existential void that imprisons, that renders man captive.

And yet, we are not merely biology. One might say that the human being lives in a tension between the finite and the infinite. We inhabit a limited body, yet think in terms of eternity—a vulnerable body that dares to dream beyond the ephemeral. This inner distance generates pain, but also creative potential. It is precisely through the aspera—the harshness of experience, failures, and falls—that openness to the transcendent emerges. The star is not a distant symbol, but a metaphor for that within us which insists on shining despite the darkness, even when the night grows dense and engulfs us.

From a psychological perspective, Bandura’s concept of self-efficacy shows us that believing in one’s own capacity to act is decisive for success. Yet this belief is not born in comfort; it is forged through trial, error, and progressive overcoming. It is not about cultivating grand illusions, but about recognising that each obstacle overcome reshapes the brain, strengthens circuits of resilience, and rewrites the narrative of the self.

Existence, therefore, should not be understood as the absence of difficulty, but as an ongoing dialogue with it. Only through the passage of pain does the possibility of freedom emerge. It is in this sense that the Latin maxim Ad astra per aspera gains renewed relevance: to reach the stars is not to deny the harshness of life, but to accept it as the very condition of ascent. To live, therefore, is not to avoid harshness and rigidity, but to accept them as conditions for growth.

Pain, when endured, transforms into wisdom; adversity, when embraced, becomes impetus. As Nietzsche asserted, “that which does not destroy me makes me stronger”—not as a glorification of suffering, but as an awareness that it is in friction that being itself is forged: the self, the whole, the all. Through hardships to the stars. Ultimately, we are not defined by the doubt that paralyses us, but by the decision to move despite it. Human worth cannot be measured by the external gaze, but by the courage to sustain one’s own existence in the face of the abyss. Thus, true achievement lies not in the absence of pain, but in the capacity to walk with it towards the horizon. It is in this gesture—rising despite the weight, advancing despite uncertainty—that the promise is fulfilled: each difficulty is a step, and each step a movement closer to the star that awaits us.

Ad astra per aspera – por caminos arduos hasta las estrellas (traducción de Josefa Ros Velasco)

La duda sobre el propio valor es quizá una de las mayores tragedias humanas, una sombra que acompaña a la humanidad desde sus orígenes. La ciencia psicológica nos muestra que la autocrítica excesiva está fuertemente asociada con la depresión, la ansiedad y los estados de desesperación. Sin embargo, el paradoja es evidente: sin el enfrentamiento con la dificultad, sin la aspereza de lo real, no existe la maduración de la identidad. Es en la fricción con la resistencia del mundo donde el individuo adquiere la solidez necesaria para erguirse. Duelen los huesos con el crecimiento infantil; el hombre crece con el dolor del camino. Es en el encuentro con la adversidad donde la identidad encuentra un terreno fértil para florecer.

Filosóficamente, este dilema nos remite a la condición existencial descrita por Kierkegaard y Sartre: el individuo es arrojado al mundo sin garantías previas, condenado a la libertad y obligado a crear sentido. En esta tarea, oscila entre la tentación de perderse en la banalidad y el coraje de asumir su propia singularidad. La duda sobre uno mismo, cuando no se transforma en una reflexión constructiva surgida del aburrimiento, se convierte en algo que solo puedo denominar anomia subjetiva: un vacío existencial que aprisiona, que convierte al ser humano en rehén.

Y, sin embargo, no somos solo biología. Podríamos decir que el ser humano vive en una tensión entre lo finito y lo infinito. Habita un cuerpo limitado, pero piensa en términos de eternidad; un cuerpo vulnerable que osa soñar con lo no efímero. Esta distancia interior genera dolor, pero también potencia creadora. Es precisamente a través de la aspera—la rudeza de las experiencias, los fracasos y las caídas—como se manifiesta la apertura hacia lo trascendente. La estrella no es un símbolo distante, sino una metáfora de aquello que en nosotros insiste en brillar a pesar de la oscuridad, incluso cuando la noche se vuelve densa y nos engulle.

Desde el punto de vista psicológico, la autoeficacia de Bandura nos muestra que creer en la propia capacidad de actuar es determinante para el éxito. Pero esta creencia no nace en la comodidad; nace del ensayo, del error y de la superación progresiva. No se trata de cultivar ilusiones grandiosas, sino de reconocer que cada obstáculo superado reconfigura el cerebro, refuerza los circuitos de resiliencia y reescribe la narrativa del yo.

La existencia, por tanto, no debe entenderse como la ausencia de dificultad, sino como un diálogo permanente con ella. Solo en la travesía del dolor se encuentra la posibilidad de libertad. Es en este sentido que la máxima latina Ad astra per aspera adquiere actualidad: alcanzar las estrellas no es negar la dureza de la vida, sino aceptarla como condición de la propia ascensión. Vivir, por tanto, no es evitar la aspereza y la rigidez, sino aceptarlas como condiciones del crecimiento.

El dolor, cuando se atraviesa, se transforma en sabiduría; la adversidad, cuando se acoge, se convierte en impulso. Como afirmaba Nietzsche, «aquello que no me destruye me hace más fuerte», no como una glorificación del sufrimiento, sino como la conciencia de que es en la fricción donde se forja el ser: el yo, el todo, el conjunto. Por caminos arduos hasta las estrellas. En última instancia, no estamos definidos por la duda que nos paraliza, sino por la decisión de movernos a pesar de ella. El valor humano no puede medirse por la mirada externa, sino por el coraje de sostener la propia existencia frente al abismo. Así, la verdadera conquista no reside en la ausencia de dolor, sino en la capacidad de caminar con él hacia el horizonte. Es en este gesto—erguirse a pesar del peso, avanzar a pesar de la incertidumbre—donde se cumple la promesa: cada dificultad es un peldaño, y cada peldaño, una aproximación a la estrella que nos espera.